Uma coleção feita a pensar na história

19 dezembro 2017

Venceu o Best of Show no Cascais Classic Motorshow, com um Lancia Lambda Limousine, de 1928. O que é que este carro tem de especial para o ter levado a concurso?

Escolhi este carro pela sua beleza e por ter sido revolucionário na época, dada a suspensão independente de que dispõe. E como está no seu estado original, embora com uma patine do tempo, achei que seria uma boa escolha.

E tem um significado especial...

Era um dos automóveis que o meu tio mais gostava pelo seu aspeto e pelo barulho fabuloso que faz o escape. Foi ele quem começou a colecionar clássicos e transmitiu-me essa paixão. Este Lancia Lambda foi dos primeiros carros a fazer parte da sua coleção iniciada nos anos 50. O primeiro foi um Ford T de 1954.

A sua coleção integra outras marcas lendárias...

Foi feita a pensar na história do automóvel. Essa era a intenção do meu tio e sempre foi o seu objetivo. Por isso tenho muitos exemplares de marcas famosas e que em parte hoje já desapareceram, como é o caso da Auburn, Packard, Delage ou Clement Bayard.

As motas também ocupam um lugar muito importante na sua coleção, como uma Brough Superior igual à que vitimou Lawrence da Arábia em 1935.

As motas são realmente o meu maior gosto, pois desde que tirei carta de moto nunca mais deixei de andar em duas rodas.

Mas foram o ponto de partida para iniciar a coleção de motas, composta por exemplares de 1901 até aos nossos dias.

Sim, quando herdei a coleção do meu tio virei-me para este tipo de veículos. A Brough é uma das principais da coleção pois trata-se de uma moto que na altura era considerada o Rolls Royce das duas rodas. O famoso militar a que se refere teve cinco exemplares. Aliás, ele morreu num acidente com uma Brough que ainda existe.

Quer destacar alguns modelos de automóveis e de motas?

Eu não gosto de destacar nenhum modelo em especial e até me é difícil fazê-lo, porque cada exemplar é interessante pela sua especificidade, ou pelo que representa na história do automóvel ou da mota, independentemente de quanto possa valer em termos económicos. No entanto, posso destacar o BMW 328 que gosto muito e que pertenceu ao corredor Manuel Nunes dos Santos. É raro por ser o único exemplar deste modelo, sempre pertenceu a um português e sempre foi um carro de corrida. Também me agrada muito o prazer que me dá em conduzi-lo.

Apesar disso considera-se mais um restaurador...

Porque sempre gostei de mecânica (é a minha formação) e de restaurar carros e motas. Isso dá-me um prazer imenso, ver como em muitos casos um monte de sucata se transforma num belo automóvel ou mota a funcionar em perfeitas condições. Confesso que às vezes até me esqueço um bocado deles depois de estarem devidamente restaurados.

E hoje é um serviço especializado que presta a outros colecionadores.

Hoje em dia restauro não só para mim como para qualquer outro cliente que pode vir a nossa oficina restaurar, reparar ou, por exemplo, montar uma direção assistida elétrica para facilitar e dar mais prazer na condução de um clássico.

Voltando à sua coleção, quais foram os exemplares mais difíceis de adquirir?

Nas motos tenho tido muita sorte, devo confessar, pois tenho conseguido alguns exemplares únicos bastante interessantes sem grande dificuldade. Acho que conheço as pessoas certas... Em relação aos carros teríamos de perguntar ao meu tio, o que infelizmente já não é possível, mas mais abaixo vou-lhe contar uma história interessante.

E os mais raros?

A raridade nem sempre é o fator mais importante. Muitas vezes oferecem-me carros para comprar dizendo que só há um ou que é único em Portugal, mas na realidade o modelo não tem nada de interessante.

E uma história interessante?

A história mais interessante vai para o Orient Bucboard de 1904. Este carro pertenceu a um médico, já bastante idoso, que não o vendia por nada, pois tinha-o comprado quando era jovem. O meu pai que também era médico e meu tio visitaram-no muitas vezes para tentarem comprar o carro. Este senhor ouvia muito mal, pelo que as conversas eram sempre muito complicadas. Um dia meu pai perguntou-lhe porque é que não usava um aparelho para melhorar a audição. O médico ficou espantado a olhar pra ele pois não conhecia tal invenção. Isto passa-se nos anos 60. Virou-se para o meu pai e disse-lhe: ó colega, se o senhor fizer com que eu ouça melhor o carro é seu. Conclusão da história: este carro custou uma prótese auditiva que na altura não era nada barata, como hoje acho que também ainda não são.

 A paixão pela competição também o acompanha.

Gosto realmente da competição, não corro, mas como presidente da comissão de motos clássicas da FIM Europa, vou com bastante frequência a corridas como organizador. Em automóveis apenas participei em dois circuitos da Boavista, num deles tendo ficado o meu BMW em segundo lugar na prova conduzido pelos meus amigos Mário Nicha Cabral e Rodrigo Gallego. É essa paixão pela competição que hoje em dia marca a minha preferência para as motos de corrida que continuo a colecionar.

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