JOÃO JORDÃO

A SINGULARIDADE E RETORNO DOS RALIS

JOÃO JORDÃO
Secretário Geral do ACP Motorsport
23 setembro 2016

O desporto automóvel e em particular as provas de estrada, com destaque para os ralis, são competições desportivas com caraterísticas únicas e interessantes no panorama desportivo em geral, não sendo facilmente comparáveis com outro desporto.

Em relação ao desporto considerado “rei” (o futebol), saltam à vista algumas diferenças enormes, nomeadamente uma, que destacaria, o local onde é disputado.

Um estádio de futebol é um estádio, mais ou menos moderno, com mais ou menos público, mas nunca deixa de ser um estádio no qual o foco das atenções vai para o relvado, onde o jogo se disputa, e para as bancadas, onde público assiste ao jogo. Ou seja, um cenário muito pouco revelador das caraterísticas paisagísticas e culturais de um país e/ou do seu povo.

Em relação aos ralis, a realidade é bastante diferente, direi mesmo oposta. Esta modalidade desenrola-se em serras, vales e planícies, consoante as caraterísticas paisagísticas do país ou região onde se insere, bem como, permite a passagem dos participantes no meio de cidades, seja em competição ou não, cidades essas que podem ser de grande, média ou mesmo de pequena dimensão. Em Portugal, existem nomes de cidades e vilas que só são conhecidos do grande público pela sua associação, atual ou não, com os ralis.

A somar ao anterior, destaca-se a paixão enorme que este desporto provoca, principalmente nos países latinos, onde é normal assistir-se a grandes multidões que “invadem” literalmente os troços, dando um “colorido” muito especial a estes eventos. Em Fafe, normalmente a última classificativa da versão atual do WRC Vodafone Rally de Portugal, costumam estar reunidas mais de 100.000 pessoas em pouco mais de 11 km, sendo que dessas, vários milhares são estrangeiros. Segundo o estudo de impacto económico da prova desenvolvido pela Universidade do Algarve, é de destacar que desses, muitos referem que o único motivo para a visita a Portugal foi a ida ao Rally (89%) e, destaque-se ainda, que 25% deles nunca se tinham deslocado à região em questão, neste caso Fafe.

Facilmente se percebe porque os ralis são aproveitados como veículos de promoção turística de países e/ou regiões.

Em relação a Portugal, país com fortes tradições e pergaminhos na organização de ralis, como o Rally de Portugal (organizado pelo ACP há 50 anos), prova com presença regular no Mundial da especialidade, destaco um número conhecido recentemente: o aumento em 15,5% das dormidas durante o mês do Rally (Maio 2016) em relação a igual período no ano anterior. A região Norte de Portugal registou, assim e nessa altura, o maior crescimento turístico de todo o País.

É pois de louvar a aposta arrojada e corajosa que o Turismo Porto e Norte teve em apoiar esta prova em 2015, altura em que incompreensivelmente, e contra tudo o que é o racional, a entidade Turismo de Portugal decidiu retirar o apoio à mesma. Decisão tanto mais incompreensível quando se tem em linha de conta que, ano após ano, o Rally tem trazido para o País um retorno só comparável com o EURO 2004, segundo o mesmo estudo de impacto económico desenvolvido pela Universidade do Algarve.

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