O caminho da recuperação

27 dezembro 2017

As lesões em competição são um risco para todos os desportistas de topo, em particular no caso dos desportos motorizados, onde pequenas colisões e acidentes podem atirar um piloto para o hospital.

Não se podem saltar passos. "A corrente é tão forte quanto o elo mais fraco," diz Gérard Saillant.

Os acidentes podem provocar vários tipos de lesões, desde membros deslocados a fraturas da coluna, todos eles com elevado potencial de afetar a carreira de um piloto. Felizmente, hoje em dia os pilotos contam com os melhores cuidados médicos desde o circuito até ao hospital e ao longo de toda a recuperação.

Cada passo deste processo é crucial, de acordo Gérard Saillant, Presidente da Comissão Médica da FIA. “É importante ter em conta que a corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco,” diz. “Isso começa na pista e depois disso continua com a segurança nas manobras de extração do piloto, os cuidados no centro médico, o transporte para o hospital, a recuperação e os cuidados pós-hospitalares.”

Então, o que acontece aos pilotos quando se lesionam numa corrida, ou num rali? Tudo começa com o primeiro contacto após o acidente.

Primeira resposta

Quando as coisas correm mal em pista, as ações dos que dão a primeira resposta podem ser cruciais. Eles têm de avaliar situações em desenvolvimento e trabalhar de forma a garantir a segurança de todos os concorrentes – e potencialmente dos espectadores – envolvidos em qualquer incidente.

Na corrida de GP de 2015 em Spa-Francorchamps, o holandês Daniel de Jong sofreu um enorme acidente quando saiu de pista a 300 km/h na curva Blanchimont.

De Jong, que fraturou uma vértebra no acidente, perdeu a consciência três vezes enquanto os comissários belgas trabalhavam para o libertar dos destroços do seu MP Motorsport, mas ele recorda-se dos esforços para o manter calmo durante o processo de extração.

"A equipa de resgate na Indianapolis Motor Speedway salvou-me a vida naquele dia,” considera James Hinchcliffe.

“Não consigo imaginar melhores pessoas para ter à minha volta que aquelas que tive naquele dia”, diz. “Pode parecer estranho, mas via-se a paixão daquelas pessoas que me queriam ajudar. Faziam perguntas simples, nada de conversas complicadas, e disseram-me tudo o que se ia passar em seguida. Até chegaram a brincar comigo de forma a tornarem tudo menos dramático.”

A paixão por ajudar pilotos lesionados pode ser vital em situações de vida, ou morte. O piloto de IndyCar James Hinchcliffe, que sofreu um aparatoso acidente nos treinos para as 500 Milhas de Indianápolis de 2015 e perdeu sete litros de sangue quando um componente da suspensão perfurou o cockpit e alojou-se na sua coxa direita, tem a certeza de que a resposta rápida da equipa de resgate foi o que o manteve vivo.

“Não tenho qualquer dúvida de que a equipa de resgate na Indianapolis Motor Speedway salvou-me a vida naquele dia,” recorda. “Sei que foi muito difícil extraírem-me porque eu estava literalmente preso à lateral do carro pelo componente da suspensão. Mas trabalharam árdua e rapidamente e tiraram-me do carro para me colocarem numa ambulância.”

Kazuki Nakajime ficou grato pelos conselhos claros dos medicos após o acidente em que partiu uma vértebra no WEC, em Spa.

A maior parte dos pilotos que se lesionam são transportados primeiro para o centro médico do evento. É aqui que as lesões são reavaliadas e que se faz uma primeira revisão do estado do piloto. Os médicos explicam a situação ao piloto e apresentam um primeiro diagnóstico. Foi no centro médico de Spa que de Jong soube, pela primeira vez, quão grave era a sua lesão.

“Queria ir à casa de banho,” recorda. “Só sentia dores no peito, que pensei que se deviam ao acidente e que passariam em breve. Mas tive de ficar na cama porque me disseram que tinha fraturado as costas. Não estava à espera disso.”

Estas primeiras conversas entre o pessoal médico e os pilotos lesionados podem ser momentos muito importantes para o processo de recuperação. Quando Kazuki Nakajima se despistou durante os treinos para a ronda de Spa do Campeonato do Mundo de Resistência de 2015, o piloto do Toyota LMP1 também fraturou uma vértebra.

Apesar de ter tido consciência de que se tinha lesionado nas costas no incidente, Nakajima sentiu que as conversas que teve com o pessoal do centro médico ajudaram-no a compreender o que lhe tinha acontecido.

“Foi bom porque ficou bem claro para mim o que estavam a tentar fazer,” explica. “A comunicação entre mim e os comissários e médicos foi sempre clara. Quando compreendi a lesão fiquei um pouco mais ansioso, mas as explicações que me deram fizeram com que o resultado fosse claro.”

Transferência para o hospital

Assim que o pessoal médico do circuito ou do rali termina a avaliação do piloto lesionado, ou lhe dão alta ou levam a cabo mais observações, ou mesmo procedem à transferência para um hospital próximo.

Em situações mais graves, é só no hospital que o piloto recupera a consciência e nesses casos é ao pessoal médico do hospital que cabe informar o piloto de tudo o que se passou.

"Quando és um piloto és uma pessoa competitiva e os médicos têm de saber como lidar com isso," afirma Tom Kristensen.

“Recordo-me que uma das primeiras perguntas que fiz quando acordei nos Cuidados Intensivos foi ‘quando é que posso voltar ao carro?’,” recorda Hinchcliffe. “Os médicos ficaram a olhar para mim em descrédito total. Mas uns dias depois do acidente tive uma conversa muito cândida com os meus pais e com o meu cirurgião e foi aí que comecei, verdadeiramente, a entender a gravidade de tudo.”

O nove vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans Tom Kristensen, que sofreu uma contusão grave num acidente numa corrida do DTM em Hockenheim em 2007, acredita que os médicos têm de assegurar que os pilotos compreendem as suas lesões para os poderem ajudar a recuperar por completo.

“Quando és um piloto és uma pessoa competitiva e os médicos têm de saber como lidar com isso,” diz. “Os médicos têm mesmo de nos perguntar, de olhar-nos nos olhos, e garantir que compreendemos o diagnóstico e o processo de recuperação.”

Os passos que se seguem

Dependendo da gravidade das lesões – alguns podem requerer cirurgia adicional, ou outro tipo de tratamento – os pilotos iniciam o processo de recuperação após saírem do hospital.

Para Hinchcliffe, que não voltou às corridas até ao início da época de 2016 da IndyCar, dez meses após o acidente, o descanso foi a principal prioridade da recuperação.

A recuperação de Anthony Davidson após ter fraturado duas vertebras em Le Mans incluiu treinos de karting antes de voltar à pista.

“Fiz o mínimo possível,” diz. “Uma vez que o descanso era o melhor que havia para o meu corpo, converti o processo num jogo para ver o quanto descansava num dia. Quanto mais depressa recuperasse da lesão, mais depressa voltaria ao treinar e preparar-me para regressar ao carro.”

A natureza competitiva de Hinchcliffe fez com que até o processo de recuperação fosse uma competição, mas essa grande força de vontade que ajudou outros pilotos no caminho de regresso ao volante.

A recuperação de Nakajima da lesão contraída na coluna foi francamente rápida. Uma semana após o acidente foi transferido para um hospital em Nice, onde foi submetido a uma cimentoplastia para fundir a vértebra que tinha fraturado. Depois, após intenso período de fisioterapia e reabilitação, regressou à competição nas 24 Horas de Le Mans de 2015, apenas seis meses depois do acidente.

“Optei pela operação, mas é claro que tive de pensar no assunto porque há sempre algum risco com as cirurgias,” explica. “Mas a minha principal prioridade era correr em Le Mans, pelo que final acabei por optar por ser operado.”

Extensos períodos de reabilitação física para recuperação da força são comuns no processo de recuperação de uma lesão, mas algumas terapias desportivas também podem ser benéficas. Anthony Davidson, que fraturou duas vértebras num acidente em que o seu carro levantou voo na corrida de Le Mans de 2012, ficou preocupado com a possibilidade das lesões contraídas virem a afetar as suas capacidades de condução, pelo que fez karting para apaziguar os receios.

“Acho que tive mais medo de não conseguir voltar a conduzir do que qualquer outra coisa,” recorda. “Por isso, umas semanas depois, incentivado pelo meu fisioterapeuta, fui fazer karting apenas para provar a mim próprio. Foi a melhor forma de aumentar a minha confiança.”

Regressar à ação

Regressar à ação pode ser assustador para um piloto lesionado. Alguns sentem medo, ou nervosismo, e é aqui que o papel do médico é ainda mais importante.

Como Saillant diz: “Por vezes, regressar à ação é muito complicado. O momento mais difícil não é imediatamente após o acidente, mas algumas semanas depois porque o piloto está sozinho, a imprensa já não fala dele. Assim, em termos psicológicos, pode ser um momento muito duro.”

Marcus Grönholm considera muito importante a existência de uma formação continuada sobre novos sistemas de segurança.

Quando um piloto está pronto para regressar à competição é quando o Diretor Médico do circuito e o delegado médico permanente de um campeonato FIA fazem uma avaliação.

“O trabalho deles não é dizer se um piloto está em forma para competir em termos de prestação, mas antes dizer que não há riscos para ele, ou para os outros pilotos,” diz Saillant. “A decisão mais sensível a tomar diz respeito às consequências de uma contusão.”

As primeiras voltas de regresso aos comandos do carro são um momento muito importante no processo de recuperação de qualquer piloto. Davidson recorda-se de estar preocupado com as dores no regresso à ação nas 24 Horas de Daytona, sete meses após o acidente de Le Mans.

“Lembro-me que tive medo de poder sentir dores e de não saber o que fazer se as sentisse,” diz. “Ainda me sentia mais como um paciente do que como um piloto em recuperação quando cheguei a Daytona, mas desapareceu tudo rapidamente ao cabo de algumas voltas.”

Kristensen crê que o acidente que sofreu em Hockenheim, que o levou a perder três jornadas do DTM, o mudou. Mas foi a vontade de voltar a correr que o ajudou na recuperação.

“Pode dizer-se, sem margem para dúvidas, que depois daquele acidente algo mudou em mim e é preciso ser-se mentalmente muito forte, determinado e apaixonado para ultrapassar isso,” diz. “É a combinação da determinação e paixão que nos traz de volta.”

De um profissional para outro

Apesar de cada piloto enfrentar desafios únicos pela frente durante o processo de recuperação, os colegas de profissão podem oferecer conselhos com base na experiência que têm com a forma de lidar com lesões.

Andreas Mikkelsen arrepende-se de não ter ouvido os médicos após o acidente que sofreu numa jornada do IRC.

Marcus Grönholm, bi-Campeão do Mundo de Ralis, sofreu uma lesão cerebral após um acidente que o deixou inconsciente quando o seu carro embateu num poste de luz de cimento, não protegido, nos X Games de Los Angeles, em 2012. Ele estava a usar um sistema HANS e um banco que não lhe eram familiares no dia do acidente e acredita que seria positivo para os pilotos receberem mais formação sobre como utilizar os novos sistemas de segurança durante as competições.

“Precisamos de mais formação porque não há nada de errado com ter mais informação,” explica. “Isso é sempre positivo. São apenas alguns minutos da nossa vida e há sempre coisas que podem ser feitas na área da segurança.”

Andreas Mikkelsen sofreu uma contusão quando teve uma colisão frontal forte no Rally da Irlanda de 2012, prova do Intercontinental Rally Challenge. Ele levou a cabo mais duas especiais e terminou a prova mesmo depois do acidente, mas agora acredita que foi um erro esperar tanto tempo antes de consultar profissionais médicos sobre os sintomas que estava a sentir.

“Esperei muito tempo antes de ver como estava,” diz. “Terminei e levei a cabo todos os procedimentos normais que se seguem a um rali e só depois é que decidi ver como estava apenas para ter a certeza. Vale muito mais prevenir, que remediar, pelo que não devia ter esperado tanto tempo antes de ver um médico.”

Aprender com o passado

Não há dúvidas de que a segurança e os cuidados médicos melhoraram muito no desporto motorizado ao longo dos últimos 20 anos, e muito disso deve-se a melhores conhecimentos.

Para Saillant, isso é um dos aspetos mais importantes do tratamento e recuperação de um piloto. “Há edução e formação para os médicos e pessoal médico envolvido no desporto motorizado,” diz. “Para extração, reanimação, transporte e por aí a diante; os conhecimentos melhoraram porque agora temos muitas sessões de treino e seminários em todo o mundo.”

A FIA está a trabalhar arduamente para garantir que as práticas médicas ao mais elevado nível do desporto motorizado passam para as bases. É por isto que a divulgação das mais recentes técnicas e práticas é essencial.

Saillant acrescenta: “Agora temos muito mais informação no site da FIA e em publicações como a AUTO+Medical, que é distribuída ao pessoal médico do desporto motorizado e voluntários em todo o mundo. Através destas ferramentas a edução médica está a tornar-se cada vez melhor.”

Hinchcliffe também não tem qualquer dúvida de que a melhoria dos conhecimentos do pessoal médico e de segurança no desporto motorizado conseguida ao longo dos anos foi o que o manteve vivo após o acidente.

“Penso que as lições aprendidas no passado desempenharam um papel muito importante na minha sobrevivência,” diz. “O entendimento da situação e as decisões ‘no momento’ fizeram a diferença entre a vida e a morte. Apenas décadas de experiência podem preparar um grupo para isso.

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