O piloto que ultrapassou a tragédia duas vezes

23 maio 2019

O desaparecimento de Niki Lauda,  piloto austríaco de Fórmula 1 no passado dia 20 de maio deixou o mundo consternado, em especial o do desporto motorizado. Tinha 70 anos e não resistiu a complicações de saúde.

Respeitado pelos seus pares e inspirador para várias gerações de pilotos, não foram só os três títulos mundiais (1975, 77 e 84) que fizeram de Niki Lauda uma lenda do automobilismo.

Se em 1975 o austríaco ficou famoso por ser Campeão do Mundo de Formula 1, a temporada de 1976 acabaria por se revelar uma das mais emblemáticas na vida do piloto. No Grande Prémio da Alemanha acabou por sofrer um grave acidente, como carro em chamas, em que só não morreu devido à ajuda de outros pilotos, nomeadamente a de Emerson Fittipaldi. Já no hospital, Lauda lutou pela vida depois de sofrer múltiplas fraturas e queimaduras e os pulmões intoxicados.

Mas Niki não era um piloto imprudente. Precisamente antes do início da prova alemã, tentou demover os restantes participantes devido a razões de segurança, sendo só vencido por um voto. Lauda acabou por pagar caro essa votação vencida. Lauda tinha, porém, uma surpresa guardada para o desporto automóvel: não só sobreviveu ao aparatoso acidente em Nurburgring como, 43 dias depois, regressou à competição ao volante do seu Ferrari. Apenas falhou dois Grandes Prémios.

Como se não bastasse, foi de novo Campeão do Mundo em 1977. Para a história ficou também o seu terceiro título, em 1984, conquistado por meio ponto ao francês e colega de equipa Alain Prost. Esta continua a ser a margem mais pequena entre 1º e 2º classificado na história da Formula 1.

Com a competição para trás e dedicado ao mundo dos negócios, Niki Lauda voltou a enfrentar os azares da vida quando em 2018 foi submetido a um transplante pulmonar. “Fiquei morto brevemente, mas ressuscitei”, afirmou, ao vencer a morte pela segunda vez.

Mais uma vitória mas que durou pouco. No início de 2019, o tricampeão foi internado novamente por causa de uma gripe. O maior problema passou a ser, entretanto, o funcionamento dos rins, que também eram transplantados e que não resistiram.

Com a morte de Lauda no passado dia 20 de maio, foram muitos os que quiseram prestar-lhe homenagem, sobretudo pilotos, equipas, ex-campeões do mundo de Fórmula 1 e personalidades de outras categorias do desporto motorizado. A Mercedes-Benz, marca a que o austríaco esteve intensamente ligado, deixou bem expressos os seus sentimentos com este desaparecimento.

Carlos Sainz, Fernando Alonso, Nico Rosberg, Nigel Mansell, Dani Sordo e as equipas como a já referida Mercedes, Ferrari, McLaren ou Renault são apenas alguns dos nomes que quiseram juntar-se a este imenso tributo ao piloto, onde palavras como ‘inspiração’, ‘lenda’ e ‘herói’ foram as mais citadas por descreverem, de forma unânime, o legado do tricampeão do mundo de Fórmula 1. Nem as gerações mais novas e outros desportos deixaram passar em claro esta perda, como foi o caso do único português que milita no MotoGP, Miguel Oliveira, piloto ACP.

Com um humor afiado, Nikki Lauda também deixa para a história do desporto automóvel algumas das suas frases mais célebres:

“Há milhares de jovens que conseguem rodar mais rápido que eu. Mas eu piloto um Ferrari”, afirmou enquanto piloto da Ferrari entre 1974 e 1977.
“Estou cansado de dar voltas como um tonto”, confessou após a sua retirada dos circuitos em 1979.
“Espero que o carro da assistência médica não nos supere na largada”, ao irritar-se com o rendimento da Jaguar quando era diretor da escuderia em 2002.
“Com os salários atuais dos pilotos, se eu fosse americano provavelmente levaria a minha mãe a julgamento por ter me trazido ao mundo muito cedo”, sobre os altos valores praticados já depois da sua retirada.
“Não é fácil ser perfeito. Mas seria bom se alguém conseguisse”, acerca da perfeição.
“O homem é capaz de admitir tudo, exceto que é um mau condutor”, sobre os homens ao volante.
“Como o meu trabalho depende unicamente do meu pé direito, a minha aparência física importa pouco”, ao falar do seu aspeto depois do acidente de 1976.
“Fiquei morto brevemente. Mas ressuscitei”, quando sofreu o transplante de pulmão em 2018.
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