Jeep Wrangler: para uma família aventureira

08 novembro 2018

Jeep Wrangler Unlimited Sahara. Um nome grande e que transmite robustez para um automóvel que, ao primeiro olhar, não consegue esconder essas mesmas características. Com quase cinco metros de comprimento e uma distância entre eixos superior a três, a carroçaria de quatro portas do jipe da Jeep não passa despercebida por onde quer que circule. É um daqueles casos em que, enquanto o conduz, lhe apontam o dedo. Ou porque não compreendem o porquê de ter optado por um automóvel tão grande ou porque, imediatamente, aprovam o design intemporal e imponente do Wrangler, que se mantém praticamente inalterado após dezenas de anos de serviço.

Exteriormente, nem podia ser de outra forma. A Jeep, para satisfação dos muitos fãs do Wrangler, limitou-se a limar algumas arestas na sua carroçaria. Mantêm-se as sete barras verticais da grelha (agora ligeiramente recuada no topo a fim de melhorar a aerodinâmica) e as exteriores são invadidas pelos faróis redondos – muito eficazes, em LED na unidade ensaiada – um detalhe que liga a nova geração à mais antiga CJ. Na lateral continuam a destacar-se as dobradiças expostas e as cavas das rodas de forma trapezoidal, e na secção traseira, a roda suplente aparafusada ao portão da mala, mas com novo posicionamento que favorece a visibilidade, ao volante, para trás. Apesar disso, não lhe falta a câmara de estacionamento para auxiliar nos lugares de estacionamento mais à justa.

Suba e instale-se

Sim, no Wrangler, para se entrar, é necessário subir, mas os estribos e as pegas no pilar são uma grande ajuda. A bordo, comparativamente à carroçaria mais curta, a grande diferença é a existência de uma segunda fila de bancos que transforma o Wrangler num verdadeiro veículo familiar, algo que, no meio de tantos SUV e station wagon de desenho mais convencional, é, no mínimo, original e diferente, por ser igual ao que sempre foi. O espaço atrás não falta e o, normalmente, incómodo túnel de transmissão central não é aqui um obstáculo à boa habitabilidade, nem para o passageiro do lugar do meio, uma vez que o espaço para os pés é adequado para três pessoas.

Ainda atrás, ao meio, estão as saídas da ventilação, bem como as tomadas USB e uma de 230 V, mas ao assento faltam-lhe alguns centímetros extra para que o suporte para pernas seja mais pronunciado e a viagem mais confortável para quem lá vai sentado. A bagageira é enorme e, acima de tudo, tem formas muito regulares. A divisória que a separa do banco traseiro permite utilizar todo o volume em altura, e debaixo do piso existe um compartimento adicional.

Para os passageiros da frente, o nível de conforto é bem superior ao que é oferecido aos de trás. Os bancos são mais envolventes e no caso do Wrangler que conduzimos eram também aquecidos, um luxo que se mostrou de grande utilidade perante o frio que enfrentámos durante este ensaio. Aquecido é também o volante e o habitáculo, graças ao ar condicionado bizona. Para completar a experiência a bordo, o Wrangler está equipado com um sistema de som da Alpine que garante quantidade e qualidade sonora.

NO ALCATRÃO E DEPOIS DELE ACABAR

Apesar das inegáveis aptidões para o fora de estrada, o cuidado colocado pela Jeep em tornar o Wrangler mais confortável e refinado mostra que o aponta aos clientes que procuram algo mais do que um convencional SUV, mas para quem o Wrangler sempre foi demasiado focado no todo o terreno. Um claro sinal deste caminho é o conforto com que rola e acumula quilómetros, onde apenas o ruído da passagem do ar e o consumo algo elevado em autoestrada denunciam a aerodinâmica peculiar do Jeep.

A direção, também ela orientada para caminhos acidentados e trilhos com obstáculos, implica que as correções de trajetória em estrada aberta sejam constantes, assim como o é a rapidez com que o depósito da água para o para-brisas fica vazio devido à quantidade de vezes que lhe temos de recorrer para eliminar os muitos insetos que se acumulam, fruto da posição quase vertical do vidro. Mas a experiência de conduzir o Wrangler é assim mesmo, conviver com características que o distinguem da restante oferta e que lhe dão uma enorme personalidade. Relativamente a comportamento, não se espere sentir do Wrangler Unlimited a resposta e a dinâmica das propostas mais convencionais do segmento.

As dimensões e o peso fazem-se sentir, mas a estabilidade que revela (bem superior à da versão curta, principalmente durante as travagens fortes), considerando o principal propósito da sua existência, está longe de desiludir. O que o SUV da Jeep permite é que quando lhe apetecer dar um ar da sua graça – e pode na mesma levar a família consigo – tem apenas de se dirigir ao seu trilho ou caminho favorito e deixar que o sistema de tração integral Command-Trac – com modo permanente ou automático com gestão do binário e da tração - e a grande altura livre ao solo façam a sua magia, ultrapassando valas e trepando íngremes ladeiras com facilidade.

Para as situações ainda mais difíceis estão lá as redutoras e para as descidas não falta o controlo automático da velocidade. Debaixo do capot, no lugar do anterior motor 2.8, está o novo 2.2 Multijet que iguala o anterior na potência, 200 cavalos, mas supera-o com 450 Nm de binário às 2000 rpm. Novidade é também a transmissão automática de 8 velocidades, suficientemente rápida a reagir ao acelerador, mas suave nas transições durante uma condução normal.

Resta referir a questão do preço, valor que ultrapassa os 70 mil euros (dos quais mais de 19 mil são impostos...), se considerarmos a unidade ensaiada. E tal como este número, também os das dimensões exteriores podem assustar os condutores mais sensatos, mas a verdade é que conduzir o Wrangler é agora uma experiência mais fácil e muito mais refinada. O trabalho efetuado pela Jeep, ajustando o compromisso do chassis entre o seu comportamento em estrada e as suas aptidões fora dela, aproximou-o do desempenho de uma mais vulgar proposta SUV mas sem prejudicar a sua reputação de exímio veículo todo o terreno. Em suma, mais racionalidade, sem perder nadinha da sua forte personalidade aventureira, algo de que poucos automóveis se podem gabar.

Este ensaio faz parte da parceria com a revista semanal AutoMAG.

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