O turismo na Nacional 2 está a ganhar velocidade

26 maio 2017

O projeto de promoção turística da EN2, a maior e uma das mais antigas do país e palco da grande prova 500 Milhas ACP, está a ganhar bom ritmo, com a assinatura esta semana de um acordo entre a Infraestruturas de Portugal ( IP - entidade que gere aquela via) e 29 dos 35 municípios que são por ela atravessados.

Segundo o presidente da IP, António Laranjo, é uma “aspiração” da empresa “manter a memória" da "estrada histórica”, viabilizando um circuito de lazer ao longo de vários pontos de interesse e constituindo “um projeto turístico diferenciador”. 

Já Luís Machado, presidente da Associação de Municípios da Rota da Estrada Nacional 2 (AMREN2), considerou que este projeto “será, talvez, o maior exemplo de coesão nacional, juntando todos os municípios, de norte a sul”, afirmando-se como alternativa ao turismo do litoral. Luís Machado lembrou ainda que existe agora pela frente um “trabalho árduo a fazer”, nomeadamente no que respeita à sinalética e promoção da estrada.

Para o Automóvel Club de Portugal, a promoção desta estrada começou há vários anos, quando se estabeleceu a EN2 como percurso das 500 Milhas ACP, uma importante prova anual que reúne alguns dos melhores exemplares de viaturas clássicas existentes no País. 

700 km de grande contraste geográfico

Chaves. Rotunda. Km 0. É aqui que começa a nossa viagem ou melhor, a história da Nacional 2, a surpreendente estrada portuguesa que atravessa o País de norte a sul ao longo de 738,5 km, desde Trás-os-Montes ao Algarve passando pelas Beiras e Alentejo.

Única do género na Europa e a terceira mais extensa do mundo a seguir à Route 66 dos EUA e à rota 40 da Argentina, a estrada onde cabe um país inteiro a Nacional 2 vai transformar-se numa extensa via turística. O objetivo é dar a conhecer uma imensa variedade de relevos e paisagens, gentes e culturas, mas também a gastronomia e os vinhos ou a arte e a arquitetura que marcam as regiões que a atravessam.

De Chaves a Faro, este percurso cruza-se com alguns dos mais importantes rios ibéricos, serras imponentes, mas também importantes barragens que marcam de forma muito especial os cenários que se vão encontrando de norte a sul. A tudo isto somam-se as inúmeras aldeias, vilas ou cidades que compõem e dão vida a este longo eixo rodoviário.

Classificada oficialmente como Estrada Nacional em 1945, e Estrada Património em 2003, a história da Nacional 2 remonta ao tempo dos romanos, há 2000 anos, quando por aqui se estabeleceu o Império Romano. Nessa época o que dela existia servia para fins militares e económicos, facilitando a mobilidade das legiões em defesa do território e permitindo o escoamento dos recursos mineiros até aos portos de embarque.

Mais tarde, “os caminhos que fariam a união das várias regiões do país, de norte a sul, pelo seu eixo equidistante entre a fronteira e o mar, terão sido pensados e concretizados durante a segunda metade do séc. XIX por Fontes Pereira de Melo, para no século seguinte, durante a década de 30, já na era do automóvel, virem a ser pavimentados pelas grandes campanhas de obras públicas realizadas pelo então ministro Duarte Pacheco” afirmou João Catarino, professor, ilustrador e um apaixonado por viagens.

Em 2009, inspirado pelas 500 Milhas, organizadas pelo ACP Clássicos, do qual é sócio, João Catarino fez-se à estrada percorrendo toda a Nacional 2 ao volante da sua “pão de forma”. Uma aventura de cinco dias em que este viajante registou em desenho o que lhe ia na alma à medida que avançava no percurso.

A João Catarino “dava a sensação de estar num Portugal imenso, com uma noção real da riqueza cultural e da diversidade paisagística que ia encontrando e uma verdadeira sensação de travessia mesmo num país tão pequeno”, onde conduzir deu muito prazer. Já quanto ao trajeto, nenhuma outra estrada portuguesa apresenta tanta diversidade orográfica como esta, em que os socalcos durienses, as planícies alentejanas e as praias algarvias se cruzam formando aquela que, para João Catarino, é “uma road movie, a imagem de estrada associada à liberdade e à ideia de que não nos prendemos por muito tempo a lugar nenhum, sabendo sempre que dali para a frente tudo muda, num percurso que deve ser feito devagar ao ritmo das estradas antigas de forma a poder apreciar demoradamente toda a envolvente".

Rota com oferta turística ímpar

No ano passado, a Estrada Nacional 2 foi o ponto de partida para a criação desta rota turística, iniciativa impulsionada pelos municípios que são atravessados por esta via e está a ser liderada pela autarquia de Santa Marta de Penaguião. A rota já foi reconhecida pelo Turismo de Portugal, que “se disponibilizou para promover este produto na Europa, bem como todas as entidades regionais de turismo que vêem de facto na EN2 uma oportunidade diferente, única, com um potencial de enorme sucesso”. 

Luís Machado, o autarca e mentor do projeto, salienta o conceito desta rota pela EN2 focada num turismo de proximidade: “quem fizer este percurso passa a conhecer quase toda a gastronomia, quase todos os vinhos nacionais e quase toda a cultura desde o folclore transmontano até ao cante alentejano” numa ação coletiva que ao mesmo tempo pretende “criar riqueza para todos aqueles que vivem nos territórios de baixa densidade, valorizado o património, desde a paisagem ao turismo religioso e outros pontos de interesse”.

O projeto que agora dá os primeiros passos tem ainda a intenção de “criar um passaporte com o carimbo municipal para os turistas marcarem os locais por onde passarem” e evoluir para que “os preços sejam uniformes, idênticos em todos os concelhos”. Em cima da mesa está também a possibilidade de candidaturas a fundos comunitários no sentido de consolidar a Rota da EN2.

500 Milhas ACP rolam na Nacional 2 desde 2006

Foi esta ideia de passeio em bom piso e com boas curvas sempre acompanhados por belos cenários naturais, que motivou o ACP Clássicos a realizar em 2006 a primeira edição das 500 Milhas ACP. “Quando na altura tivemos esta ideia de lançar as 500 Milhas na Nacional 2, a Estradas de Portugal foi inexcedível no apoio que nos prestou, nomeadamente ao nível das respetivas Direções das Estradas que tiveram o cuidado de reparar uma série de coisas ao longo do trajeto desde as marcações às redes de proteção” recorda Luís Cunha, secretário geral do ACP Clássicos, organizador da prova.

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